Toledo tem alcázar… Segóvia tem alcázar… E Madrid?

Madrid não tem alcázar, mas teve! E é sobre a história deste lugar há muito desaparecido que vou falar hoje, dia em que se “comemora” o início da demolição do velho Alcázar de Madrid depois de vários anos na ruína.

Origens do Alcazar de Madrid

Alcazar de Madrid em 1534
Alcazar de Madrid em 1534 (Wikimedia Commons / Licença CC)

O Alcázar de Madrid foi, durante vários anos, o palácio real da monarquia espanhola, até ao seu desaparecimento em 1734.

Como já falei em outros artigos, a cidade de Madrid foi originalmente fundada pelos árabes. Servia de posto de vigilância contra os ataques cristãos ao Al-Andalus e à cidade de Toledo que na época era a mais importante.

E é aqui que devemos situar a primeira construção do alcázar (alcácer em português).

Algures entre os anos de 860 e 880 o emir de Córdoba, Muhammad I, mandou construir uma alcáçova no local onde hoje em dia se situa o Palácio Real de Madrid. Era o coração da cidadela islâmica de Mayrit, recinto amuralhado do qual ainda hoje podemos ver vestígios, e contava com uma mesquita e a casa do emir, para além do castelo.

Construído primeiramente como fortaleza militar, a alcáçova foi sendo ampliada e melhorada ao longo dos séculos e especialmente no século XVI, quando se converteu em palácio real (apesar de continuar com o nome de Alcázar).

Remodelações

No Alcázar de Madrid viveram 3 dinastias e 8 gerações de monarcas espanhóis, desde a dinastia dos Trastámara até aos Bourbons.

Apesar dos esforços por dotar o edifício de um traçado harmonioso, o facto de ter sido construído por cima de algo que já existia, ter sido modificado, ampliado e reformado, fez com que ao longo dos séculos o palácio fosse ficando com um aspecto cada vez mais heterogéneo e esquisito.

Construção original e posteriores remodelações
Construção original e posteriores remodelações (Wikimedia Commons / Licença CC)

Os visitantes franceses e italianos, habituados a outro tipo de construções, criticavam fortemente o alcázar: as fachadas eram irregulares, a distribuição interior parecia um labirinto e muitos dos salões nem sequer tinham janelas.

Dinastia Trastámara

Converteram o alcázar na sua residência temporária. No final do século XV o alcázar de Madrid já era uma das principais fortalezas de Castela e sede habitual das Cortes do reino.

Enrique III (Trastámara)

Construiu várias torres que deram ao edifício um aspecto mais parecido a um palácio

Juan II (Trastámara)

Construiu a Capela Real e uma pomposa sala à qual chamava Sala Rica, pela sua decoração. Com estas obras o castelo foi ampliado em 20%.

Carlos I (Áustria)

Fez a primeira grande ampliação do alcázar em 1537.

Filipe II (Áustria)

Durante o reinado de Filipe II, o alcázar foi convertido definitivamente em palácio real. Mandou construir a Torre Dourada e a Armería Real, que se encontrava no local onde hoje encontramos a cripta da Catedral da Almudena.

São também feitas grandes obras de remodelação das zonas privadas do Rei e da Ala Oeste.

Filipe III (Áustria)

Com Filipe III é a vez dos aposentos da Rainha serem remodelados. É também com este rei que as fachadas do palácio sofrem alterações significativas de forma a tentar igualá-las umas às outras.

Filipe IV (Áustria)

Foi completada a estrutura arquitectónica que o alcázar conservou até à sua destruição por completo. Obras a cargo de Gómez de la Mora.

Pintura do século XVII, o Alcázar de Madrid
Pintura do século XVII, o Alcázar de Madrid já com a sua última remodelação feita (Wikimedia Commons / Licença CC)

Carlos II (Áustria)

Durante o reinado de Carlos II as obras continuaram e foi criada uma outra torre, simétrica à Torre Dourada, a Torre da Rainha.

Filipe V (Bourbon)

Com Filipe V começou a última etapa da história do Alcázar de Madrid e das suas reformas. Desta vez as restaurações serão feitas nos interiores, para adequar o palácio ao gosto francês dos seus ocupantes. Mas Filipe V nunca gostou muito do palácio e mandou construir outro, o Palácio do Buen Retiro, local onde vivia normalmente.

O incêndio de 1734

Maqueta do Alcázar de Madrid no Museu de História de Madrid
Maqueta do Alcázar de Madrid no Museu de História de Madrid (Wikimedia Commons / Licença CC)

E na noite de Natal de 1734 aconteceu o impensável.

Até hoje não se sabe muito bem como aconteceu, mas passados 15 minutos da meia-noite, as sentinelas do Alcázar dão voz de alerta para um incêndio de grandes proporções.

Os frades de San Gil, convento localizado ao lado do alcázar fazem repicar os sinos para avisar a população do fogo e chamar reforços mas, dada a hora que é, acabam por ser confundidos com os sinos a chamar para a Missa do Galo.

Segundo o relato feito a posteriori por Félix de Salabert, o incêndio começou nos aposentos do pintor da corte Jean Ranc, quando uns guardas decidiram celebrar aqui o Natal, aproveitando a lareira e o facto de os Reis e a corte não se encontrarem no palácio nessa noite.

Reconstrução virtual do incêndio do Alcázar de Madrid
Carmen García Reig: Reconstrução virtual do incêndio do Alcázar de Madrid.

Por medo a que o palácio fosse saqueado, os frades só deixaram entrar no palácio gente da corte e clérigos para ajudar a salvar o maior número de coisas possíveis: cofres cheios de moedas, joias e pedras preciosas da família real, a Perla Peregrina e o diamante El Estanque, assim como mais de 1000 quadros, esculturas e diversas obras de arte foram salvas com a ajuda de um dos “serralheiros reais”, a única pessoa nesse momento no Alcázar que tinha as chaves para abrir os diferentes quartos e poder salvar pessoas e bens.

Mas mesmo assim, mais de 500 quadros foram irremediavelmente perdidos, entre eles a obra maestra de Velazquez, La expulsión de los moriscos. Entre os quadros que foram salvos está Las Meninas, também de Velásquez, que foi arrancado da sua moldura e atirado por uma janela. O quadro ficou com um rasgão na bochecha da Infanta, mas o “acidente” foi habilmente restaurado por mestres da época e hoje em dia não se nota.

O fogo durou 4 dias e consumiu praticamente todo o Alcázar de Madrid, deixando apenas algumas paredes de pé que tiveram de ser demolidas pelo mau estado em que ficaram. As chamas eram tão fortes que muitos objectos de ouro e prata derreteram e os seus restos tiveram de ser retirados em baldes.

As Menindas, de Velázque
As Menindas, de Velázquez. Um dos quadros que puderam ser salvos (Wikimedia Commons / Licença CC)

E tudo neste incêndio foi estranho… A família real, convenientemente, estava a passar o Natal no Palácio de El Pardo, quando normalmente assistiam à Missa do Galo na Capela Real do Alcázar; muitos dos quadros e da arte do palácio tinham sido retirados para o Palácio do Buen Retiro algum tempo antes, para não serem afectados pelas remodelações do interior; o aviso dos frades foi confundido com os sinos da Missa do Galo; a ajuda demorou muito tempo a chegar e praticamente nada foi feito para salvar o Alcázar.

Mas… Sabendo que Filipe V não tinha grande apreço pelo palácio, será que este não foi um crime propositado? O certo é que, 3 anos depois do incêndio, o que restava das ruínas do Alcázar de Madrid foi limpo e começou a construção do novo Palácio Real, exactamente no mesmo sítio.

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